terça-feira, maio 16, 2006

Convocatória para o Mundial

:: Cromo Repetido:: O "Grupo" Acima de Tudo

Antes de comentar a convocatória ontem anunciada por Scolari, parece-me conveniente esclarecer alguns pontos que assumo serem verdadeiros:

- Por muito discurso que Scolari faça para disfarçar a sua resposta de verdadeiro casca-grossa a Agostinho Oliveira, e mesmo sendo Scolari chefe de todos menos de Madaíl (ou também de Madaíl?... às vezes confunde-se), será sempre Agostinho Oliveira a ser responsabilizado pelos resultados (ou falta deles) dos sub-21 no Europeu. Assim sendo, vou assumir que Scolari se está borrifando para o resultado do Europeu em comparação com o do Mundial; consequentemente, terá escolhido o melhor grupo de jogadores possível para o Mundial, sem estar a sacrificar ninguém para bem dos sub-21.

- O que os adeptos de futebol vão tendo oportunidade de observar em campo é apenas uma parte do que se torna relevante ao fazer uma convocatória como esta. Não é conveniente ao seleccionador ter jogadores cuja personalidade possa entrar em conflito com outros, deteriorando o espírito de grupo. Como exemplo, a imagem de Mellberg e Ljungberg ao murro num treino da Suécia. Não havendo nenhum jogador verdadeiramente seleccionável que tenha tido esse tipo de comportamento por cá, vou assumir que também não serão antipatias pessoais a determinar quem "é da malta" e quem não é; portanto todos seriam, em princípio, seleccionáveis para fazerem parte deste grupo restrito.

- Finalmente, uma equipa deve ter alguma rotina em campo, pelo que é desejável a manutenção de um núcleo estável, dentro do possível. O trabalho do seleccionador é principalmente o de coordenar a manutenção deste núcleo com a incorporação dos jogadores que a cada momento estejam em melhor forma, e consequentemente mais capazes de produzir resultados. Só assim uma selecção pode evitar cair num dos extremos: uma equipa farta de jogar junta mas cheia de gente em baixo de forma, ou uma equipa em que toda a gente está em forma mas joga cada um para seu lado.

Feito este preâmbulo, é fácil de entender muitas das escolhas de Scolari. De facto, Quim, Ricardo Costa, Costinha, Maniche, Hugo Viana e Hélder Postiga nada fizeram esta época para merecerem um lugar na convocatória. No entanto, fazem parte do tal "grupo", e não convocar uma parte significativa deles teria certamente impacto negativo no momento piscológico da selecção. A ênfase aqui é na "parte significativa", senão temos uma selecção de lugares cativos até à reforma.

Por falar em reforma, vou deixar Figo sossegado por uma vez. Pronto, baldou-se à fase de qualificação toda e voltou quando lhe apeteceu. Se calhar ainda é mais chefe do que Scolari e Madaíl juntos. Mas não interessa, porque isso pelos vistos não afecta o grupo.

O que me interessa comentar é simplesmente aquilo que Scolari recusa comentar: os que não foram convocados. Scolari aparentemente acredita que não lhe pagam o suficiente para ter que explicar em condições as suas decisões. Não questionem, que ele já foi campeão do mundo (não interessa se foi com o Brazil, continua a não ser qualquer um que faz isso). O problema é que ao recusar falar sobre determinados assuntos, mais não faz do que expor a fragilidade inerente às suas decisões. Muito simplesmente, se assim não fosse, explicava-se.

Qual seria então a explicação para a não convocatória de Quaresma? Para escolher Viana em lugar de Moutinho? Ou Postiga em vez de João Tomás? E que tal dar uma oportunidade num amigávelzito qualquer a jogadores como Miguelito ou Pedro Mendes? Não interessa; os que não foram convocados, para todos os efeitos, não existem.

Aquilo que me preocupa nos que foram efectivamente convocados é existir muito pouca gente que esteja realmente em forma (ao contrário do Euro 2004), e muito pouca gente com velocidade. Boa Morte não se encaixa bem na forma de jogar da selecção, e à falta de Quaresma, no 11 inicial só resta Cristiano Ronaldo com velocidade. Poucas soluções para ponta-de-lança, também, mas esse já é mal comum há muito tempo.

Boa sorte para o Mundial, e cuidado com os grupos "fáceis".